Sempre achei que a música deve defender a realidade do povo, desde as suas felicidades a suas agrugras. E nesse último ponto o samba tem o grande papel de relatar a realidade vivida pelo sambista e sua comunidade (vide por exemplo o primeiro samba de todos PELO TELEFONE) , não é música de protesto, não se prende ao lenga lenga de um rap reclamando de tudo e mais um pouco. O samba, quando de protesto, é a realidade pintada de forma poética, cabe ao ouvinte encarar esse cenário e refletir. Exemplos não faltam, desde as crônicas de Noel Rosa relatando de forma quase jornalística o cotidiano, até o sambista título deste post, compositor do belíssimo "protesto" ACENDER AS VELAS.
O sambista Zé Keti é de fato um dos meus preferidos, a forma como ele mescla a realidade a sua volta com seus sentimentos é dificilmente atingida com tal perfeição. De letras sombrias como MEU PECADO até sambas engraçados e festivos como NEGA DINA e PSIQUIATRA, este ilustre portelense passeia com suavidade por questões duras que abrangem o envelhecimento, alcoolismo e miséria; usando melodia marcante e delicadamente sinuosa.
A letra abaixo mostra todo esse potencial:
Foi ela quem quis partir
Foi ela quem quis descer
Deixou me aqui no morro
Deixou-me sem dó a sofrer
O meu tamborim eu furei
O meu violão já quebrei
Não posso contar as lágrimas que tanto derramei
O meu barraco coitado está quase caindo
O poço já secou e a criação está sumindo
Os móveis estão bem empuerados
Na mesa de cabeceira vejo o retrato dela desbotado
Foi foi foi
Não voltou
Sem ela não há mais samba no morro, tudo para mim se acabou
Para quem quiser, segue o link pro wiki com a biografia desse grande sambista: http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Keti

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