Terça-feira, Maio 13, 2008

Levando a fama

 

Na onda do post sobre o grande Zé Quieto (como era chamado Zé Ketti) segue um fato que introduz o meu próximo reciocínio: NARA LEÃO DEVE GRANDE PARTE DO SEU SUCESSO A MÚSICAS DE AUTORIA DO SAMBISTA CIDADO

Todo mundo que me conhece sabe que tenho horror a discurso racista, assim como não suporto políticas de afirmação racial... pra mim, qualquer atitude que segregue as raças ou que rotule comportamento cultura é uma tremenda babaquice e coisa de gente mal intencionada. De toda forma, existem momentos que me sinto obrigado a trazer estas questões de pele a toda, justamente pra defender a igualdade que sempre prego.

Digo isso pois uma coisa vem me irritando faz algum tempo no meio fonográfico brasileiro, desde que samba virou moda (é... não vou nem entrar nesse assunto). É ridículo e gritante o preconceito (não uso aqui o termo racismo pois o buraco é mais embaixo, tem a ver com padrão estético e classe social também) da indústria que se apodera do samba composto pelo povo e coloca de mão bejada na mão da playboysada do Leblon. Pobre e preto (leia aqui: quem não se enquadra em padrões sociais e estéticos da elite) não faz sucesso cantando samba, mas basta colocar na boca de uma Maria Rita branca e sem graça pra coisa virar a descoberta da pólvora!
Um exemplo gritante são grupos como o Casuarina. Os caras cantam música que todo mundo já cantou, fazem um som bem abaixo da média que se ouve em qualquer boteco da zona norte e tiram marra de supra-sumo do samba! Outra desgraça a citar é o filho do saudoso João Nogueira, Diogo Nogueira, que é um mauricinho de marca maior e faz graça cantando um repertório repleto de sucessos do seu pai e outros sambas já consagrados... daí ele coloca a voz imitando claramente o grande João, faz caras e bocas, coloca uma roupinha de malandro e todo mundo bate palma e acha lindo ! TÁ DE SACANAGEM!!!

 

image

-O chapéu de malandro custou uma nota, a pose é pra fingir que sabe sambar-

É aquela história, agora ser sambista é cult.. todo mundo quer andar de guia mas ninguém quer ir a macumba! (isso não é um ditado ! de fato tenho visto na mídia um monte de pseudo-macumbeiros... gente que acha tudo muito cult e muito na moda)

Não estou aqui defendendo que o samba deve ficar secreto e limitado a um seleto grupo, do contrário, sou afavor da sua demistificação e popularização. Mas aí vem a máxima: popularização do samba é igual a "povo detentor do samba" ?

Não! pelo menos da forma como está sendo feito hoje.

 

Grande abraço!!

Zé Keti, o berro do povo

zeketti

Sempre achei que a música deve defender a realidade do povo, desde as suas felicidades a suas agrugras. E nesse último ponto o samba tem o grande papel de relatar a realidade vivida pelo sambista e sua comunidade (vide por exemplo o primeiro samba de todos PELO TELEFONE) , não é música de protesto, não se prende ao lenga lenga de um rap reclamando de tudo e mais um pouco. O samba, quando de protesto, é a realidade pintada de forma poética, cabe ao ouvinte encarar esse cenário e refletir. Exemplos não faltam, desde as crônicas de Noel Rosa relatando de forma quase jornalística o cotidiano, até o sambista título deste post, compositor do belíssimo "protesto" ACENDER AS VELAS.

O sambista Zé Keti é de fato um dos meus preferidos, a forma como ele mescla a realidade a sua volta com seus sentimentos é dificilmente atingida com tal perfeição. De letras sombrias como MEU PECADO até sambas engraçados e festivos como NEGA DINA e PSIQUIATRA, este ilustre portelense passeia com suavidade por questões duras que abrangem o envelhecimento, alcoolismo e miséria; usando melodia marcante e delicadamente sinuosa.


A letra abaixo mostra todo esse potencial:

Foi ela quem quis partir
Foi ela quem quis descer
Deixou me aqui no morro
Deixou-me sem dó a sofrer

O meu tamborim eu furei
O meu violão já quebrei
Não posso contar as lágrimas que tanto derramei

O meu barraco coitado está quase caindo
O poço já secou e a criação está sumindo
Os móveis estão bem empuerados
Na mesa de cabeceira vejo o retrato dela desbotado

Foi foi foi
Não voltou

Sem ela não há mais samba no morro, tudo para mim se acabou

 

 

Para quem quiser, segue o link pro wiki com a biografia desse grande sambista: http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Keti

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Ao cão e a minha tristeza

O cão se calou,
Amontuou-se em si, encolhido no seu canto preferido.
Como se aproveitasse até esse último momento.
Dali, de olhos abertos viu a morte chegando.
Deve ter percebido, no seu entendimento de cão, que esta última visita é tão intolerante quanto igualitária.
Nos vê apenas como vidas a serem ceifadas:
A morte não conta o número de patas.

 

---------------------------------------------

 

O domingo de repente se partiu,
a chuva de maio mais fria.
O mundo ao meio.
Eu tentei nem pensar, passei o domingo sem me olhar no espelho. Meus olhos me lembram muito você.

 

-----------------------------------------------

 

Na calada da noite, muda fica minh'alma.
Se sujeita a ter te distante, a sujeita da minha vida.
Doi tanto que de repente me mordo, tentando trazer a tona alguma lembrança da lógica física, tentando fazer sentido no incompleto.
No meu sangue tem tanto de você que sou quase algo contra mim.
Uma negação de singularidade, a vontade de ser duplo contigo.
A garantia inconsciente que só assim seria tudo, seria mais feliz.
A minha vontade é não gastar mais meu tempo repartido.
Só te olhar a semana inteira, a alguns centimetros do nariz, até te absorver em cada gesto.
Mimetizar cada uma de suas fragrâncias e me ter como um chaveiro de sua personalidade.

 

-----------------------------------------------

 

Como faço pra dormir sem mim?